6. GERAL 15.5.13

1. GENTE
2. VIDA DIGITAL  O BERO DO BIG DATA
3. VIDA DIGITAL  UMA REPORTAGEM SOBRE ALGORITMO
4. CRIME  A CASA DO HORROR
5. CRIME  MERGULHO NAS TREVAS
6. INFRAESTRUTURA  NDIO QUER TUMULTO
7. ESPECIAL  NO BASTOU ESCAPAR DO INFERNO
8. EUROPA  GUERRA AOS PARASOS FISCAIS
9. RELIGIO  ANTES DE FRANCISCO
10. MEMRIA  TO CAPAZ E CAPAZ DE TUDO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni e Bela Megale

UMA FILA DE FS
A apresentador RENATA FAN, 35, acorda todo dia s 5 horas. L quatro cadernos de esportes, assa pes de queijo para o caf e escolhe um salto alto, entre os 200 pares de sapato que tem, para ir  televiso, onde apresenta um programa dirio de futebol. Eu tinha 400, mas dei uma enxugada, diz Renata, que j foi miss e  formada em direito e jornalismo. De miss, carrego a mania de ficar com a mo na cintura, e, do direito, a habilidade de destrinchar contratos. Renata tem loucura por bola (acompanha de campeonato europeu a segunda diviso do brasileiro e assiste a partidas simultneas). E quando o tema  o namorado, um piloto de stock car, ela tambm surpreende:  Fico no boxe, junto com os mecnicos. Se ele ganha, pulo, abrao e dou beijo neles". A revista ALFA traz mais diverses com Fan.

BEM BICHO-GRILO
Ele j fez parte dos besouros mais famosos do mundo e foi um dos pioneiros do estilo de vida natureba. Talvez tenha sido por isso que PAUL MCCARTNEY encarou com bom humor a nuvem de esperanas, primos pacficos dos vorazes gafanhotos, que tomou por cerca de 45 minutos seu show em Goinia. "Esses animais s duram 35 dias e vivem em rvores, que existem em abundncia perto do estdio onde houve o show. As luzes os atraram em abundncia explica Benedito Batista, professor de entomologia da Universidade Federal de Gois. O lado bicho-grilo do ex-beatle tambm se mostrou no dia seguinte, quando ele relaxou num hotel de luxo no sul da Bahia. Lado bicho: soltou tartaruguinhas no mar, plantou uma rvore e pediu de presente dois tapetes de ioga do hotel. Lado cri-cri: quis piano no quarto e menu vegetariano para as treze pessoas da equipe.

O MAPA DO INFERNO
A operao para a traduo do novo livro de Dan Brown, o conspiracionista autor de O Cdigo Da Vinci, assemelha-se  rede de segredos que tornam seus livros planetariamente famosos. Dois grupos de tradutores foram trancafiados em regime fechado, em salas sem janelas, em Londres e em Segrate, perto de Milo. "Nossos computadores no tinham internet, entregvamos celular e bolsa na entrada e, para ir ao toalete, um segurana nos acompanhava. No podamos falar do livro nem com o marido", descreve a entusiasmada RACHEL AGAVINO, carioca de 32 anos que coordenou a traduo de Inferno para o portugus. "Trabalhei por trs semanas, onze horas por dia. O livro tem a ver com o inferno de Dante, mas s digo isso. A multa  de muitos euros."

O NEGCIO FOI PUNK
O baile de gala do Metropolitan Museum, em Nova York,  o momento do ano em que os estilistas vestem as famosas mais corajosas com suas criaes mais transgressoras. Neste ano, a festa coincidiu com uma exposio sobre o estilo punk e o pessoal caprichou. SARAH JESSICA PARKER achou bacana usar o maior nmero possvel de combinaes exticas: torre na cabea, botas Louboutin at o meio das coxas, vestido abre-alas e calcinha  vista. KIM KARDASHIAN, grvida de sete meses, foi de sof. Ah, no, era um Givenchy com estampas florais dos ps  ponta dos dedos. " a grvida mais bonita que j vesti", defendeu-se Riccardo Tisci, o normalmente refinado estilista da marca. As luvas camufladas, numa variao flamejante, tambm baixaram  e engordaram  na bela BEYONC. Contraste total com o minivestido de GISELE BUNDCHEN, cheio de argolinhas mostrando a perfeio recuperada. J o palet azul-eltrico do marido, TOM BRADY, melhor esquecer.


2. VIDA DIGITAL  O BERO DO BIG DATA
A monumental abundncia de dados, sua variedade e a velocidade com que trafegam no universo digital esto revolucionando a civilizao.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

ON-LINE AINDA NO VENTRE Uma em cada trs crianas americanas j est presente na web antes mesmo de nascer  normalmente uma ultrassonografia  postada pelos pais em redes sociais. Aos 2 anos, 92% das crianas esto na internet, em fotos ou vdeos, e algumas at contam com perfil no Facebook. Vivemos num mundo no qual cada momento da vida passou a ser digitalizado.

     H uma dcada, a Target, a gigantesca loja de departamentos com 1800 pontos de venda nos Estados Unidos, atribuiu um nmero a cada um dos seus milhes de clientes e passou a rastrear e armazenar todas as pegadas digitais deixadas por eles: produtos preferidos, hbitos de consumo, mdia de gastos, uso de cupons, carto de fidelidade. Somou a isso dados demogrficos de cada um deles, adquiridos em empresas do ramo: sexo, idade, profisso, local de moradia, estimativa de renda. Contratou estatsticos para analisar essas informaes e montou um retrato preciso do padro de consumo de cada cliente. Um dia aconteceu um incidente. 
     Um senhor entrou esbravejando numa loja da Target em Minnesota. Trazia nas mos cupons de produtos para bebs. "Minha filha recebeu isto aqui pelo correio", reclamou o senhor para o gerente. "Ela  uma adolescente. Vocs esto querendo estimul-la a engravidar?" O gerente conferiu a remessa dos cupons e, constrangido, pediu desculpas. Dias depois, com receio de perder o cliente, telefonou para ele a fim de desculpar-se outra vez. O pai da adolescente estava desconcertado do outro lado da linha: "Tive uma conversa com a minha filha. Fiquei sabendo de algumas coisas que estavam acontecendo dentro da minha casa". Respirou fundo e completou: "Ela vai dar  luz em agosto...". 
     O caso, narrado por Charles Duhigg no livro O Poder do Hbito, virou um clssico do Big Data  o nome em ingls usado para definir a tectnica quantidade de dados e informaes que produzimos no mundo digital.  uma tal profuso de dados que, em quinze minutos, a humanidade gera o triplo de informaes disponveis no acervo da Biblioteca do Congresso americano, a maior do mundo. A era do Big Data s se materializou com a confluncia de alguns fatores. Caiu o custo de armazenar dados. H duas dcadas, estocar 1 gigabyte saa por 1000 dlares. Hoje, custa 6 centavos. Os processadores tornaram-se velozes, os programas ficaram mais inteligentes e a quantidade de dados cresce exponencialmente. Tudo isso junto  o bero do Big Data. 
     A imensido de informaes  composta, numa pequena parte, de dados limpos, corretos, checados, como uma pesquisa do IBGE. So os "dados estruturados". Mas a grande novidade do Big Data, o elemento verdadeiramente novo e transformador, so os "dados no estruturados". Os dados sujos, incompletos, caticos.  o clique do mouse para comprar um livro na Amazon, ou no comprar.  a nova foto no Facebook, um novo tute, mesmo crivado de erros ortogrficos.  um novo vdeo no YouTube.  a pesquisa no Google, o telefonema gravado "para sua segurana", a msica que se escuta online, o livro que se l num leitor eletrnico.  o e-mail que se envia para um amigo, e mesmo o e-mail que no chega a ser enviado.  o lixo on-line. Mas um lixo que vale ouro. Eis o que diz o matemtico americano Peter Norvig, ex-diretor de tecnologia da informao da Nasa e atual diretor de pesquisa do Google: "Com o Big Data, gasta-se muito mais tempo coletando dados do que chegando a resultados. Mais de 90% da informao armazenada sempre aparenta ser dispensvel. O que percebemos  que o real diferencial est no que  considerado lixo. Grandes descobertas ocorrem quando olhamos com os olhos corretos o que foi descartado e assim vemos o que esses dados podem nos revelar do mundo. Esse  o segredo do Big Data". 
     A anlise do oceano de informaes pode revelar um padro, uma correlao, um significado antes oculto e, quase sempre, ajuda a prever o futuro. Stephan Fihn, mdico fascinado por estatstica, coordena o sistema do Big Data da rede mdico-hospitalar que atende 25 milhes de veteranos de guerra dos EUA. Sua base de dados  colossal: 80 bilhes de arquivos, 9 milhes de internaes, 6 bilhes de exames de laboratrio, 3 bilhes de bilhetes mdicos  manuscritos, caticos. Cruzando tudo, Fihn faz projees sobre a sade dos pacientes. "Temos previses semanais", diz. "Qual a probabilidade de tal paciente ser internado em trinta dias? Qual o risco de falecer? Isso est revolucionando o modo como pensamos em sade." 
     Em toda a histria, a humanidade tomou decises com base numa parte do todo  na amostragem, na pesquisa, na estimativa. Agora, pela primeira vez, podemos comear a tomar decises com base no todo, com 100% de informao. Escreve Michael Malone, professor da Universidade Santa Clara, no Vale do Silcio: "A humanidade viveu 10.000 geraes fazendo escolhas impregnadas de incerteza. Eram grandes saltos no desconhecido". Na era do Big Data, deixaremos de viver como as 10.000 geraes que nos antecederam. Para alguns pesquisadores, o Big Data  to revolucionrio na vida humana quanto a descoberta do fogo ou o incio da agricultura. 
     O monumental impacto ser sentido em todos os campos.  provvel que tenhamos de superar nossa tendncia mental a medir tudo com preciso e rigor. Na era do Big Data, isso  desnecessrio e intil. A vasta quantidade de dados diluiu a eventual m qualidade. Teremos de aprender a lidar com o caos do mundo real. Em vez de sairmos  rua para recolher dados perfeitos e ordenados, teremos de abraar as imperfeies. A busca pela causa, essa obsesso humana para entender o mundo, pode ser substituda pela correlao. O Big Data oferece significado, correlao, mas no oferece a causa. Uma pesquisa da Universidade de Cambridge, com base em dados de 58.000 usurios do Facebook. descobriu uma relao inusitada: pessoas com alto QI tm apreo especial pela voz do ator Morgan Freeman. Por qu? Ningum sabe. O Master-Card, analisando 65 bilhes de transaes de 1,5 bilho de clientes em 210 pases, descobriu o seguinte: o consumidor que enche o tanque do carro por volta das 16 horas tende a gastar entre 35 e 50 dlares na hora seguinte num mercado ou restaurante. De novo: ningum sabe por qu. 
     Em outro impacto colossal, a prpria democracia representativa poder ser substituda pela democracia direta. No mundo do Big Data, um cidado comum pode ter tanta informao quanto um senador. Hoje, o iPhone de um camel na Praia de Ipanema acessa, numa semana, mais informao do que Napoleo Bonaparte teve em toda a vida.  uma nova civilizao. Na utopia de Malone: "Pela primeira vez na histria, todas as relaes e transaes podero se dar entre iguais". Na economia, a produo em massa est sendo substituda pela produo customizada, que agora ser sucedida pela produo personalizada. No sculo XX, o valor transitou de bens fsicos (terras, fbricas) para intangveis (marcas, propriedade intelectual). Agora, nova transio  desta vez para os dados. Na economia industrial, o petrleo  o ouro negro. Na economia do futuro, o ouro  o dado. 
     A Acxiom, localizada no Arkansas.   considerada o gigante das "corretoras de dados", como so chamadas as empresas que coletam, analisam e vendem dados. Tem 23.000 servidores que processam 50 trilhes de informaes por ano. Tem 1500 informaes sobre 500 milhes de consumidores no mundo. Seu cadastro inclui a maioria dos adultos dos EUA. As corretoras de dados j foram apelidadas de mistura de ciberntico com paparazzi. O grosso das informaes vem do universo digital. Diz o empresrio David Gorodyansky, dono da AnchorFree, empresa de software do Vale do Silcio: "H mais dados on-line do que dentro da casa das pessoas". Ou seja: o cuidado de fechar a porta de casa ao sair deve ser redobrado na vida digital. 
     A abundncia e a variedade de dados seriam inteis se fosse impossvel analis-los. O gnio humano, inspirado em sculos de matemtica e filosofia, criou o instrumento adequado para o trabalho: o algoritmo. A pesquisa de Cambridge, que relacionou QI  voz de Freeman, empregou um algoritmo capaz de descobrir caractersticas no reveladas no Facebook. O resultado  espantoso. Em 95% dos casos, os algoritmos descobriram a raa do usurio. Em 88%, a orientao sexual. Em 80%, religio e posio poltica. So algoritmos complexos? Michal Kosinski, da equipe de Cambridge, responde: "So muito simples. Nossa meta no era impressionar, mas mostrar que se pode deduzir muita coisa com base no nosso rastro digital". Portanto, para que o Big Data cumpra a promessa de refazer a civilizao, um instrumento essencial so os algoritmos, o assunto da reportagem seguinte. 

O HOMEM BIG DATA
O escritor americano A.J. Jacobs transformou sua rotina em um banco de informaes. Seu corpo  cheio de aparelhos que medem a quantidade de passos que d, a qualidade de seu sono, as calorias do que come e as que so gastas (passar aspirador em casa, 246 calorias por hora). Autor best-seller, ele leva a vida como um grande experimento: em Um Ano Bblico, Jacobs seguiu todas as regras da Bblia, incluindo mandamentos obscuros como no comer frutos de rvores com menos de cinco anos. A obsesso por registrar dados comeou em 2009 e resultou em seu ltimo livro, Drop Dead Healthy (em traduo livre, Morto de Sade), no qual se props a ser o homem mais saudvel possvel. Jacobs descobriu que calcular tudo que faz  o melhor caminho para ter o corpo em dia. A contrapartida  o stress mental.

SOB CONTROLE
Espantado por no saber por que era to cara a conta de eletricidade de sua casa, o americano Shwetak Patel, professor de engenharia na Universidade de Washington, criou um sistema que registra o consumo de energia de cada equipamento domstico. Patel verificou que qualquer aparelho tem assinatura digital nica e criou sensores para detect-la. Espalhados pela casa e conectados a um tablet equipado com um software tambm desenvolvido por ele, os sensores permitiram calcular o consumo de energia da TV de sua sala, da geladeira, da secadora, de cada lmpada, e assim por diante. O professor descobriu, por exemplo, que os maiores gastadores eram a bomba do filtro da piscina e os aparelhos de DVD, ligados ininterruptamente. Com esse conhecimento, ficou mais fcil cortar despesas. Seguindo a lgica do mundo digital, Patel patenteou a inveno, fundou uma startup e j a vendeu a uma empresa maior.

A MULHER BIG DATA
Big Data poderia ser o apelido da novaiorquina Hilary Mason. Cientista-chefe da empresa Bitly, ela transformou uma ferramenta que antes se limitava a reduzir o tamanho de URLs de sites (um endereo longo como veja.abril.com.br/multimidia/ programa/help-desk vira abr.ai/12hTAwZ) em fenmeno do Big Data. Com ela, o Bitly passou a analisar como as pessoas navegam pelos sites. Hilary tambm estuda algoritmos usados em programas para criar mquinas que, baseadas em informaes do Big Data que elas mesmas coletam, possam aprender sozinhas novas funes. A mulher Big Data ainda fundou uma organizao inusitada: rastreia hackers e os ajuda a conseguir empregos legais.  uma forma de tir-los da bandidagem virtual.

INFORMAES NO FUNDO DO OCEANO
Desde 2007, a organizao de cientistas marinhos Integrated Marine Observing System (em ingls, Sistema Integrado de Observao Marinha) rastreia os oceanos que banham a Austrlia com uma rede de submarinos autnomos, estaes de monitoramento e uma imensa variedade de sensores flutuando na gua, colocados no fundo dos oceanos ou acoplados a animais como elefantes-marinhos. O objetivo  coletar terabytes de informaes para servir de base a pesquisas cientficas sobre a fauna, a flora, a qualidade da gua e o movimento de correntes. O projeto j reuniu mais de 300 estudiosos, que esto publicando uma mdia de 1000 artigos acadmicos por ano.  um nmero sem precedente para esse campo da cincia, que antes dependia de coletas de dados que demoravam meses, por vezes anos, para estar disponveis.

O MUNDO EM TRS "Vs"
Volume, Variedade e Velocidade formam a unidade trina do Big Data, expresso ainda sem traduo adequada para o portugus. Ela identifica um conjunto de informaes digitais to grande que ultrapassa a capacidade de armazenamento e processamento de qualquer ferramenta tecnolgica isoladamente.

VOLUME
No princpio era o bit
Bit - Abreviao de dgito binrio, a linguagem dos computadores: sequncia de nmeros 0 e 1 que guarda informaes codificadas em HDs de computador.
Byte - Equivale a 8 bits e  o suficiente para armazenar um caractere de texto no PC.
Kilobyte (1000 bytes) - A informao contida em uma pgina de livro.
Megabyte (1.000.000 de bytes) - Armazena um quinto de toda a obra de Willlam Shakespeare.
Gigabyte (1.000.000.000 de bytes) - Uma hora de vdeo em baixa resoluo.
Terabyte (1.000.000.000.000 de bytes) - 385 terabytes guardam todo o catlogo da Biblioteca do Congresso americano, a maior do mundo.
Petabyte (1.000.000.000.000.000 de bytes) - 1,5 petabyte armazena todas as msicas j criadas pela humanidade.
Exabyte (1.000.000.000.000.000.000 de bytes) - 3 exabytes  tudo o que a humanidade conseguia guardar em 1986  hoje produzimos quase o dobro disso em dois dias.
Zettabyte (1.000.000.000.000.000.000.000 de bytes) 48 bilhes de iPads, que montam um muro de 17 metros de altura com 6400 quilmetros de extenso (o raio da Terra).
1,8 zettabyte armazena todos os dados acumulados pela civilizao em um ano.
Yottabyte (1.000.000.000.000.000.000.000.000 de bytes) - Encheria a Grande Pirmide de Gize com memory cards (minsculos HDs) de 64 gigabytes de capacidade.

VARIEDADE
De onde vem a informao.
A cada dia 2,5 exabytes de informao so produzidos pela humanidade.
375 megabytes de dados so acumulados por cada famlia.
24 petabytes so processados pelo site do Google.
GOOGLE
43 petabytes de dados so trocados por smartphones e tablets conectados  internet.
10 petabytes correspondem aos e-mails enviados.

VELOCIDADE
Flops - Unidade para calcular a velocidade de processamento de computadores: equivale  capacidade de realizar um clculo matemtico simples em um segundo.
Kiloflops (1000 flops) - Processamento de um supercomputador em 1951.
Megaflops (1.000.000 de flops) - Velocidade alcanada por computadores pessoais no incio dos anos 90.
Gigaflops (1.000.000.000 de flops) -  nesta faixa que operam os PCs mais comuns, desses usados em casa.
Teraflops (1.000.000.000.000 de flops) - Capacidade da prxima gerao de videogames, o Playstation 4 e o Xbox 720, que sero lanados neste ano.
Petaflops (1.000.000.000.000.000 de flops) - Apenas supercomputadores chegam a esse patamar: o mais poderoso deles, o americano Titan, roda a 27 petaflops.
Exaflops (1.000.000.000.000.000.000 de flops) - Pelo mais conhecido parmetro da computao, a Lei de Moore, que estima que a capacidade de processamento dobra a cada dois anos, um supercomputador deve alcanar essa velocidade na dcada de 2020.

O BIG DATA NA PRTICA
Google
Permitir que centenas de milhes de usurios recebam resultados de suas buscas em meio segundo no  o grande desafio do Big Data no Google. O tesouro de verdade est nos zilhes de informaes que os usurios fornecem aos computadores do Google. Sempre que algum faz uma busca informa ao Google sua localizao geogrfica, seus hbitos de navegao, seu tempo de permanncia em cada pgina da web e, assim, revela suas predilees. Cada clique  uma informao. Em breve, o movimento dos olhos pela tela tambm poder ser capturado pelas webcams. Big Data  a associao de todos esses dados aparentemente desestruturados e conect-los de forma que passem a fazer sentido e ter valor. 

amazon.com 
De cada 100 pessoas que entram em um e-commerce como a Amazon, a maior loja on-line do planeta, apenas duas cumprem todas as etapas para efetivamente comprar algum item. Sobre esses 2% de usurios, a loja sabe quase tudo: nome, endereo, nacionalidade, e-mail, tipo de carto de crdito que usa, produtos preferidos e hbitos de compra. Esses so dados estruturados. O desafio do Big Data  capturar dados dos 98% que no chegaram at o fim, mas foram deixando pelo caminho informaes valiosas que vo ajudar a Amazon a entender as razes pelas quais a venda no foi concretizada. A partir dessas anlises, a empresa poder aprimorar seu site, diminuindo as etapas da escolha at a compra. 

MONEYBALL 
No filme Moneyball (no Brasil, O Homem que Mudou o Jogo), transposio cinematogrfica de um caso real, o personagem interpretado pelo ator Brad Pitt despreza as informaes tradicionais de seus assessores sobre os jogadores do time de beisebol que ele dirige e passa a se guiar exclusivamente pelos nmeros fornecidos por um economista e estatstico. Os assessores eram capazes de dizer quantas bolas cada jogador havia aceitado em determinada temporada. A aplicao de Big Data do estatstico fornecia isso e muito mais: a porcentagem de acerto de cada jogador em cada uma das posies do campo ocupada por ele. Com os dados projetados sobre o desempenho futuro de cada atleta, o personagem de Brad Pitt conseguiu prever quantos pontos cada jogador faria nos jogos seguintes. Ele escalou o time assim. O mtodo hoje  adotado por quase todas as grandes equipes profissionais de beisebol nos Estados Unidos. 

ShotSpotter 
A maneira clssica da geometria para localizar com exatido um ponto  a interseco de trs retas que se cruzam exatamente sobre ele. Uma aplicao de Big Data contra o crime adotada por dezenas de cidades americanas, o ShotSpotter, une a geometria euclidiana com as informaes digitalizadas enviadas por milhares de sensores sonoros. Quando um tiro  disparado na cidade, seu som  captado pelos sensores e enviado a um computador que faz em milsimos de segundo a triangulao necessria para determinar exatamente o local do incidente.
 
COM REPORTAGEM DE FILIPE VILICIC DE BOSTON


3. VIDA DIGITAL  UMA REPORTAGEM SOBRE ALGORITMO

UMA REPORTAGEM SOBRE ALGORITMO  determinar se vale a pena ler
* NO 
* SIM

* NO  J sei tudo sobre o assunto
Sim
No - Vai ajudar a entender o BIG DATA  VOU LER E DECIFRAR O MUNDO

* SIM  Vai ajudar a entender o BIG DATA  VOU LER E DECIFRAR O MUNDO

Criado na Antiguidade, ele triunfou na era digital.  a ferramenta para extrair riqueza de montanhas de dados sem utilidade.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Na tarde de 6 de maio de 2010, o mercado financeiro em Nova York comeou a despencar. O ndice Dow Jones, que mede o desempenho das aes das trinta maiores empresas americanas, entrou em queda livre sem que ningum entendesse a razo. Eram 14h42. Raramente o Dow Jones oscila mais de 300 pontos durante um dia inteiro. Naquela tarde, s 14h47, apenas cinco minutos depois do comeo da queda, o ndice j havia desabado 700 pontos, deflagrando uma onda de pnico entre investidores. Era ento, e ainda hoje o , a maior queda da histria em to pouco tempo. Quase 1 trilho de dlares viraram p em questo de segundos. De repente, sem razo aparente, o ndice voltou a subir  furiosamente. Em um minuto, o Dow Jones estava no patamar normal. O caso ficou conhecido como o crash-relmpago da Bolsa de Nova York. 
     Tocando fogo nos bastidores da crise, no havia centenas de nervosos investidores, nem multides de operadores do mercado disputando lances freneticamente. Havia algoritmos, apenas algoritmos  esses diretores invisveis que silenciosa e incessantemente executam tarefas no universo digital. Na definio clssica, algoritmos so uma sequncia de instrues, como a que est na pgina ao lado como ttulo desta reportagem, que permite que se chegue a uma concluso sobre que tipo de ao tomar  no caso, ler ou no ler esta reportagem. A origem do termo remonta ao matemtico persa do sculo IX cujo nome entrou na corrente do pensamento ocidental pelo rabe clssico como Al-Khwarizmi  que virou algarismos em latim. No ttulo da pgina ao lado, a sequncia est escrita em portugus. No mundo da computao, ela vem escrita numa linguagem que os programas entendem. So camadas e mais camadas de notaes binrias  quanto mais camadas houver, mais complexo ser o algoritmo. 
     A ideia de uma sequncia algortmica foi inspirada na vida cotidiana. Para escovar os dentes, por exemplo, usamos um algoritmo. Primeiro,  preciso pegar a escova e o creme dental, abrir a tampa do creme, apertar o tubo sobre as cerdas da escova, pr a escova na boca e esfreg-la contra os dentes. Quem no seguir essa ordem  querendo, por exemplo, aplicar o creme dental antes de abrir o tubo  vai fracassar. De onde se pode concluir que h algoritmos bons e algoritmos ruins. Mas no  uma questo simples de resolver. Depois de meses de investigao sobre o crash-relmpago em Nova York, descobriu-se que o sistema computadorizado de compra e venda de aes dos EUA entrara em colapso, produzindo a queda e a subsequente subida das aes. Os algoritmos eram ruins? At hoje no se sabe se saram do controle por acidente ou por malcia  de programadores espertalhes, dispostos a faturar milhes de dlares em segundos. O ento senador Ted Kaufman, de Delaware, resumiu a perplexidade geral: "Os algoritmos esto fechando os negcios.  tudo automtico. No fundo ningum sabe o que est acontecendo nessas transaes". 
     Os algoritmos podem ser muito simples. Por exemplo: um algoritmo para descobrir o nmero mais alto de uma lista qualquer, aleatria. Em portugus, a sequncia ficaria assim: 
1) Considere que o primeiro item  o maior nmero; 
2) Examine cada um dos itens restantes na lista e, se algum item for maior que o nmero at ento mais alto, tome nota; 
3) Terminada a lista, o ltimo item anotado ser o maior. 
     O mesmo resultado poderia ser encontrado por um algoritmo menos elegante. Digamos, por exemplo, que o algoritmo anotasse todos os itens da lista com dois algarismos, depois examinasse um por um anotando apenas o maior. Em seguida, examinaria todos os itens com trs algarismos, desprezando sempre o menor  e assim por diante. No fim, o algoritmo encontraria a resposta certa, mas depois de percorrer um caminho longo e tortuoso.  um algoritmo ruim. O professor Thomas Cormen, chefe do departamento de cincia da computao do Dartmouth College, em New Hampshire, explica que o hardware de um computador pode ser excepcional, o sistema operacional pode ser fantstico, mas, se os algoritmos forem ruins, nada funcionar direito. O algoritmo  o crebro. Ou melhor: a rede neuronal. Como os neurnios do nosso crebro, eles se ativam e se desativam conforme a necessidade, so dinmicos, velozes e  o mais incrvel  capazes, com a prtica, de aprender e melhorar seu desempenho. 
     Algoritmos possantes, no entanto, so mais eficientes que nossos neurnios: mais rpidos, mais precisos (e muito mais baratos). Por isso, realizam tarefas que nos so impossveis, como decodificar uma montanha catica, quase infinita, de dados  o Big Data. Eis a anatomia da revoluo que est acontecendo: a tectnica fartura de dados pode ser entendida em segundos desde que analisada por algoritmos bem concebidos. Com isso, os algoritmos tm maiores possibilidades do que nossos neurnios de calcular todas as gradaes de luz que Caravaggio pintou em suas obras-primas, decifrar o acorde de abertura que George Harrison usou em A Hard Day's Night e, quem sabe um dia, descobrir, afinal, se Capitu traiu Bentinho com seu amigo Escobar. 
     "Os algoritmos esto, literalmente, por toda parte", diz Christopher Steiner, autor de um livro sobre o assunto. Eles regulam o preo de mercadorias conforme a oferta e a procura. Escrevem sinfonias emocionantes como se fossem um compositor polons. Fazem diagnsticos com mais competncia que mdicos. Vencem os campees mundiais de xadrez. A Amazon usa algoritmos para recomendar livros ao gosto dos clientes. A Netflix faz a mesma coisa para indicar filmes. (Em 2009, a Netflix promoveu um concurso de 1 milho de dlares para melhorar seu sistema de recomendao. O grupo vencedor fundiu 107 abordagens algortmicas diferentes. Apropriadamente, chamava-se Caos Pragmtico.) Os algoritmos j dirigem carros, como mostram testes do Google na Califrnia, com a vantagem de que jamais excedem o limite de velocidade. Nevada e Flrida j tm lei autorizando o uso de carros sem motorista nas estradas. 
     Um professor bem preparado corrige trinta redaes por hora. Um programa comercial utiliza algoritmos que corrigem 16.000 redaes em vinte segundos. A edX, empresa da Universidade Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), introduziu um sistema que corrige textos automaticamente e  oferecido de graa a qualquer escola que queira us-lo. Na sade, os algoritmos esto ficando soberanos. No ms que vem, a Heritage Provider Network, empresa de sade, vai premiar com 3 milhes de dlares o criador de um algoritmo capaz de identificar pacientes com grande possibilidade de precisar ser hospitalizados no prazo de doze meses. A farmcia da Universidade da Califrnia, em So Francisco,  atendida por um farmacutico- rob. Ele memoriza as receitas mdicas, confronta com a ficha mdica do paciente, checa o risco de interao medicamentosa e, claro, sabe na ntegra a bula de todos os remdios. 
     Em Wall Street, onde chegaram ainda na dcada de 70, os algoritmos criaram uma realidade  parte. Eles comandam mais de 60% das operaes no prego, e fazem uma disputa feroz por inteligncia e velocidade. Desde os Rothschild, a rapidez no mercado financeiro  essencial. Com seu eficiente sistema de pombos-correio, os banqueiros foram os primeiros a saber em Londres da derrota de Napoleo em Waterloo, ficando em vantagem na negociao dos ttulos ingleses. Em Wall Street, hoje, alm de incrivelmente velozes, os algoritmos precisam simular um comportamento aleatrio. O algoritmo de um grande fundo de penso, por exemplo, no pode revelar que est programado para comprar milhes de aes de uma determinada empresa. Se o fizer, algoritmos espertos percebero, saltaro em cima das aes com uma frao de milsimos de segundo de vantagem e depois vo revend-las para o algoritmo pateta. Alguns algoritmos ficam meses a fio escondidos,  espreita, s observando os outros. Quando identificam um padro de compra ou venda, do o bote. H algoritmos concebidos para dissimular suas aes. E outros feitos para identificar a dissimulao. 
     Mas ser que, em outros campos da atividade humana, os algoritmos so mesmo eficientes? Ser que so bons para formar um casal nos sites de relacionamento? Os psiclogos duvidam. Ser que suas canes tm a vitalidade da obra de um Bach? Os especialistas dizem que no, mas o pblico leigo no nota a diferena. Ser que deixam fluir a criatividade inovadora nas redaes? Algoritmos gostam de poesia? Aprovariam um texto de James Joyce? De Guimares Rosa? Por serem uma expresso matemtica, os algoritmos carregam uma aura de verdade que pode ser enganosa. Eles so escritos por humanos e podem trazer parcialidades e preconceitos  voluntrios ou no  que comprometem sua suposta objetividade. Um algoritmo que seleciona as frases mais "importantes" do Twitter precisa ser programado para definir o que  "importante"  e, nisso, elimina-se a neutralidade. Explica Nick Diakopoulos, especialista em aplicativos de notcias: "Pode ser fcil sucumbir  falcia segundo a qual, por serem sistemticos, os algoritmos so, de algum modo, mais objetivos. Mesmo os robs tm preconceitos". At algoritmos aparentemente neutros podem ser falseados. A manipulao do algoritmo de pesquisas do Google j tem at nome: chama-se Google bombing.  o ato de criar associaes negativas  o nome de um ator com a palavra "viciado", por exemplo. Toda pesquisa sobre o ator vir junto com pesquisa de drogas. 
     Sendo mais velozes e eficientes do que ns, os algoritmos acabaro nos substituindo? Em alguns campos, isso j  realidade. Mas  improvvel que o cenrio seja aterrador. Por mais capazes que sejam de simular emoes humanas, os robs ainda sero robs, algoritmos. Ao contrrio deles, a humanidade tem uma histria cujos milnios foram imprimindo em nosso DNA caractersticas que nos fazem nicos. Diz o bilogo Edward Wilson, do alto de seus 83 anos e brilhante produo acadmica: "Cada grande passo na nossa trajetria pelo labirinto evolucionrio deixou um carimbo no nosso DNA. A humanidade  realmente nica, talvez mais do que jamais tenhamos sonhado".

O BIG DATA EM PACOTES
A americana FedEx, a mais famosa transportadora de cargas do mundo,  pioneira no uso do Big Data. Desde a fundao, em 1973, quando operava em 25 cidades, a empresa monitora os pacotes que transporta, o que resulta em um enorme banco de dados. Algoritmos permitem aos computadores da FedEx processar em tempo real e sem interrupo cerca de 2,5 milhes de transaes dirias realizadas em 220 pases por 90.000 veculos e 690 avies. Nos anos 80, a empresa tornou-se uma das primeiras companhias privadas a escanear cada encomenda. Hoje, a FedEx usa sensores que medem a temperatura, a localizao e a exposio  luz de pacotes  dados que so transmitidos diretamente ao cliente.

CONTRA O TERRORISMO
Em 2007, o aeroporto de Los Angeles comeou a utilizar algoritmos baseados na Teoria dos Jogos para orientar seu esquema de segurana contra possveis ataques terroristas. Inspirado em algoritmos usados para o pquer  nos quais se desconhece o prximo movimento do adversrio , o professor Milind Tambe, da Universidade do Sul da Califrnia, criou o programa que examina os planos que os terroristas podem considerar as suas melhores opes em termos de destruio e morte. E, com base nisso, orienta decises. A ideia est se espalhando por outros aeroportos e tambm comeou a ser aplicada na rea de segurana de transporte.


4. CRIME  A CASA DO HORROR
Como o monstro de Cleveland conseguiu, durante uma dcada, esconder, estuprar e torturar trs mulheres, duas delas sequestradas na adolescncia.
DUDA TEIXEIRA E JULIA CARVALHO

     O ex-motorista de nibus escolar Ariel Castro, de 52 anos, nasceu em Porto Rico, uma colnia americana. Em Cleveland, no estado de Ohio, para onde se mudou com a famlia, vivia em uma casa prpria na qual recebia os vizinhos para churrascos. Tambm tocava baixo em uma banda de jazz, a Grupo Fuego. Seus dois irmos, Pedro e Onil, estavam quase sempre bbados, mas, ainda assim, eram engraados e inofensivos. De vez em quando, Castro era visto em um parquinho prximo com uma menina pequena que ele dizia ser filha da namorada. Era novato no Facebook. S entrou na rede em fevereiro. "Hoje acordei com o som de um passarinho cantando. Sim! Venha, primavera", foi uma de suas primeiras mensagens. Em abril, comemorou o nascimento de seu quinto neto. No dia 2 de maio, escreveu: "Milagres realmente acontecem. Deus  bom". No dia 9, quando sua mscara j havia cado e ele se mantinha cabisbaixo ao ouvir as acusaes contra si em um tribunal municipal, Castro era o retrato apavorante de um monstro acovardado. Entre 2002 e 2004, ele sequestrou Michelle Knight, ento com 21 anos, Amanda Berry, com 16, e Georgina De Jesus, com 14, e manteve-as desde ento enclausuradas em sua casa fantasmagrica. As jovens s saram para o jardim duas vezes durante todos esses anos. Castro as torturou e as violentou repetidamente. Michelle Knight teve o rosto desfigurado aps sofrer tanta agresso. Ela contou aos policiais que ficou grvida cinco vezes. Abortou em todas as ocasies, depois que Castro a deixava sem comer por duas semanas e esmurrava sua barriga. Com Amanda Berry foi diferente. Ariel permitiu que mantivesse a gestao. Ela pariu dentro de casa em uma piscina de plstico, sem apoio profissional. A filha, hoje com 6 anos, chama-se Jocelyn. Era ela quem Castro levava para passear. 
     Psicopatas que submetem outras pessoas  escravido sexual no existem apenas nos Estados Unidos. Um dos casos mais apavorantes, descoberto em 2008,  o do austraco Josef Fritzl, que comeou a violentar a prpria filha quando ela tinha 11 anos, prendeu-a no poro por 24 e teve sete filhos com ela. No Brasil, a polcia resgatou em 2010 Sandra Maria Monteiro, ento com 29 anos, que passou dezessete anos sendo seviciada pelo pai, o pescador Jos Agostinho Bispo Pereira, no Maranho. Sandra teve sete filhos dele. Esses monstros geralmente so homens entre 30 e 60 anos com um histrico de comportamento sexual violento. Em uma carta que escreveu em 2004, encontrada pela polcia em sua casa, Castro fez uma breve definio de si mesmo: "Sou um predador sexual". 
     A depravao, contudo,  apenas parte do fenmeno. "O prazer tambm est no controle absoluto sobre as vidas que esto em suas mos", diz o psiclogo forense americano Kris Mohandie, que auxilia a polcia de Los Angeles em casos de sequestro. O jogo de terror necessrio para subjugar vrias pessoas ao mesmo tempo  um processo lento e trabalhoso que requer praticamente todo o tempo do sequestrador. Castro, que foi demitido como motorista por ter deixado uma criana sozinha dentro do nibus, pouco saa de casa. No incio, as vtimas eram submetidas a isolamento total e a violncia extrema. Como outros criminosos de sua laia, Castro deixava as adolescentes amarradas durante dias, sem comer. No incio do cativeiro, ele as mantinha acorrentadas no poro. Depois, quando j pareciam conformadas com o sofrimento, permitiu que vivessem em cubculos no 2 andar da casa. O mpeto das vtimas para fugir ou gritar por socorro foi esmorecendo conforme avanava o seu esgotamento fsico e psicolgico. Sequestradores como Castro fazem as vtimas acreditar que sua vida ser assim para sempre, que no h sada. Quando a ltima clula de humanidade  esmagada, a dependncia do sequestrado em relao ao algoz torna-se completa.  este quem decide quando a vtima poder comer, tomar gua, ir ao banheiro, dormir e, principalmente, se ser ou no abusada. Shawn Hornbeck, sequestrado em 2002, aos 11 anos de idade, em Richwoods, nos Estados Unidos, explicou a situao em 2009, dois anos depois de ser libertado: "Voc sofre uma lavagem cerebral.  como se estivesse em piloto automtico, com outra pessoa apertando os botes".
     O controle  to intenso que, passado algum tempo, a violncia no  mais imprescindvel. As correntes tornam-se imaginrias, mas as reais esto sempre  mo, "A manipulao  to profunda que as vtimas no acreditam que a porta de sada esteja realmente aberta", diz Mohandie. Na segunda-feira passada, quando Amanda Berry percebeu que Castro deixou a porta da frente destrancada para ir comer em uma lanchonete, ela hesitou. Pensou que ele estava apenas querendo test-la, para castig-la se tentasse fugir. Era algo que ele fazia frequentemente. Vencendo a barreira de medos adquiridos ao longo de tantos anos de sofrimento, Amanda abriu a porta e quebrou parcialmente a tela contra insetos, existente em muitas casas americanas, esta sim trancada. Ela gritou por ajuda e dois homens apareceram. Eles abriram ainda mais o buraco e a libertaram, junto com a filha. Da casa de um vizinho, Amanda ligou emocionada para a polcia e disse: "Me ajude. Sou Amanda Berry. Eu estive sequestrada por dez anos. Estou livre agora". Os moradores de Cleveland agora comeam a questionar a incapacidade da polcia de atentar para inmeras pistas que poderiam ter levado a uma soluo do caso muitos anos antes. Entre elas est o retrato falado feito por ocasio do sequestro de Georgina. O desenho representa com perfeio a fisionomia de Castro, que tambm era pai da melhor amiga da menina sequestrada por ele. Alm  disso, ele tinha passagem pela polcia por violncia domstica contra sua ex-mulher, cometida antes dos sequestros, e os vizinhos j haviam alertado as autoridades em diferentes ocasies de que havia algo de estranho em sua casa. 
     Calcula-se que 40.000 crianas e adolescentes desapaream por ano no Brasil. Mais de 80% desse total so por fuga. Os demais casos terminam em homicdio ou jamais so solucionados. Os sumios de mais difcil soluo so aqueles em que as vtimas so mandadas para redes de trfico de prostituio ou so adotadas ilegalmente. A falta de uma base de dados impede o Brasil de saber com detalhes as caractersticas dos sequestros. No Canad, estima-se que 58% das crianas resgatadas tenham sido exploradas sexualmente. "A faixa mais vulnervel  a partir dos 13 anos, quando a criana comea a ir sozinha  escola ou fica mais tempo na rua", diz Ivanise Esperidio Santos, presidente da organizao Mes da S, que tem um cadastro com 7000 desaparecidos. Os raptores se aproximam das crianas dando carona, doces, brinquedos e dinheiro. Foi oferecendo uma carona que Castro conseguiu levar as trs jovens para o cativeiro. De maneira sdica, todos os anos ele as obrigava a comemorar a data de seu sequestro como se fosse um aniversrio, com bolo e tudo. O monstro de Cleveland, acusado de sequestro e estupro, pode ser sentenciado  pena de morte.

UMA CARONA PARA O INFERNO
Ariel Castro sequestrou suas vtimas em ocasies diferentes, mas sempre nas proximidades da Avenida Lorain, em Cleveland. Ele as convenceu a entrar em seu carro prometendo lev-las para casa

1 - Michelle Knight - Estava na casa de um parente quando foi vista pela ltima vez, em agosto de 2002, aos 21 anos.
2 - Amanda Berry - Desapareceu aps deixar a lanchonete Burger King, onde trabalhava, em abril de 2003, aos 16 anos.
3 - Georgina De Jesus - Foi sequestrada em abril de 2004, aos 14 anos.

O CATIVEIRO
Como era o imvel em que, ao longo de dez anos, Ariel Castro aprisionou trs mulheres e uma criana
PORTA DE ENTRADA - A porta principal estava destrancada na segunda-feira 6. Havia tambm uma tela, que permaneceu trancada. Amanda Berry quebrou-a parcialmente e gritou por socorro.
JANELAS - Eram cobertas por tbuas ou sacolas plsticas.
QUARTOS - Depois de passarem alguns meses no poro, Amanda, Michelle e Georgina foram transferidas para quartos separados no 2 andar, onde ficavam acorrentadas.
PORTAS INTERNAS COM CADEADO - Quando recebia visitas, Castro escondia Amanda, Michelle e Georgina no poro ou no sto.
PORO - Nos primeiros meses de cativeiro, as mulheres permaneciam acorrentadas neste local, apertado e mido.
QUINTAL - Em dez anos, as mulheres puderam sair de casa apenas duas vezes.

O PERIGO MORA AO LADO
A pgina na internet familywatchdog.us permite localizar os pedfilos, os estupradores e outros indivduos acusados de crimes sexuais de qualquer lugar dos Estados Unidos. Cada quadradinho no mapa abaixo representa um criminoso sexual no centro de Cleveland
 PEDFILOS
 ESTUPRADORES
 CONDENADOS POR ASSDIO SEXUAL
 OUTROS CRIMINOSOS SEXUAIS

REENCONTRO - Amando Berry entre a irm e afilha no hospital, na semana passada: a menina, fruto de um dos estupros que a me sofreu, chamava o sequestrador de vov.


5. CRIME  MERGULHO NAS TREVAS
Os dias de glria do pastor-celebridade Marcos Pereira chegaram ao fim. Acusado de estuprar fiis, acobertar criminosos e at mandar matar, ele enfim est preso.
LESLIE LEITO

     A desenvoltura com que o pastor carioca Marcos Pereira, 56 anos, transitava entre poderosos, artistas e ongueiros fez dele uma celebridade da f. Um vasto rol de polticos j se deixou fotografar ao lado do influente pastor  at mesmo um abrao da presidente Dilma Rousseff ele recebeu, em homenagem no Senado ao Dia Internacional da Mulher, em 2012. Mas os dias de glria  frente da igreja pentecostal Assembleia de Deus dos ltimos Dias, que atraiu por duas dcadas gente de toda parte  Baixada Fluminense, chegaram ao fim. E as razes so de arrepiar. Na semana passada, Pereira teve a priso decretada pelo estupro de duas fiis cujos escabrosos relatos lanam por terra a aura de bom religioso cuidadosamente construda. A polcia sabe que essa  apenas a ponta de uma trama que vitimou muito mais gente e envolve uma gama de crimes bem maior. Suspeito de duas dezenas de outros estupros, o pastor  investigado ainda por seus elos escusos com traficantes (os mesmos que dizia "curar"), lavagem de dinheiro e pelo assassinato de trs pessoas que, j est claro, queriam pr abaixo o templo do terror. 
     Poucos conhecem to a fundo o reinado de Marcos Pereira quanto um ex-faz-tudo que passou uma dcada sob suas asas e deixou a igreja h um ano. Para a polcia,  considerado testemunha-chave por ter sido, ele prprio, o brao operacional de algumas das atrocidades do chefe. Ele falou com exclusividade a VEJA. Conta que vrias vezes, a mando de Pereira, acobertou marginais que procuravam asilo na igreja. "J escondi at pistola e fuzil dentro de uma guitarra usada no culto", diz o ex-auxiliar, que tambm fazia o meio de campo com estelionatrios para conseguir RGs falsos para a bandidagem em sua rota de fuga. Ele lembra o preo: 3000 reais cada um. Seu depoimento revolve ainda outro lamaal que est na mira da investigao. O ex-ajudante afirma que o pastor foi chantageado por dois fiis que diziam ter em mos um vdeo com uma das orgias que ele organizava (dentro e fora da igreja). Assim a testemunha narra os fatos: fora de si, o pastor encomendou a morte dos dois, que tiveram o corpo queimado e enterrado em um morro vizinho  fazenda de recuperao de drogados da igreja em Tingu, no municpio de Nova Iguau. A polcia est atenta aos padres em comum entre esses e outro assassinato, tambm de uma ex-fiel. A me da moa confirmou: a filha tinha, sim, gravaes e documentos contra Pereira. Dois integrantes da igreja e um sobrinho do pastor j foram condenados por esse crime. 
     O ponto de partida da investigao  trazida  luz por VEJA em maro de 2012  foi uma denncia do coordenador da ONG AfroReggae, Jos Jnior, que fora informado por gente da confiana do pastor sobre um plano para elimin-lo. Abriu-se a uma fresta para muitos outros depoimentos que escancararam os horrores na igreja. As semelhanas entre eles chamam ateno. As seis mulheres que denunciam estupros contam que, primeiro, o pastor tentava persuadi-las. "Esbravejava que eu estava possuda pelo demnio e que s o sexo com algum puro como ele me libertaria", lembra T.R., 40 anos, que ao recusar as investidas se tornava alvo de fria. "Ele xingava, humilhava, batia. Eu morria de medo e vergonha de abrir a boca." Como tantas outras  inclusive menores de idade , a moa morava na igreja, onde vivia sob a ditadura de Pereira. 
     Em seu receiturio de trevas, so proibidos refrigerante, remdio e TV (apesar de ele ter um telo no gabinete). Para as mulheres, s tnicas. A VEJA, um cinegrafista contratado pelo pastor revela que muito do que se via nos espetaculares cultos era s teatro. Ele conta: "O pastor dava dinheiro para gente pobre comprar droga e me mandava film-las em degradao. Depois, fazia a encenao da cura na igreja". Entre as fiis, Pereira tinha suas preferidas. "Funcionava na igreja uma espcie de harm, onde quatro mulheres mantinham o status de esposa", diz o diretor da Delegacia de Combate s Drogas Marcio Dubugras. Ele promovia as orgias tambm em um apartamento em Copacabana, avaliado em 8 milhes de reais. Faz parte dos dezessete imveis que a polcia suspeita terem sido usados para lavar dinheiro do crime. Na ltima tera-feira, Pereira seguia para uma de suas farras quando seu carro foi interceptado. Fez cara de deboche, achando que logo seria liberado. No foi. A polcia conduziu o pastor para o presdio Bangu 2, onde ele teve de trocar o terno italiano trazido da Flrida pelo uniforme dos detentos.


6. INFRAESTRUTURA  NDIO QUER TUMULTO
Financiados por ONGs e armados com flechas, indgenas viajam 800 quilmetros para invadir Belo Monte.

     Maior, mais cara e mais complexa obra de engenharia em execuo no Brasil, a hidreltrica de Belo Monte, no Par, comeou a ser feita em 2011, com um oramento de 13,8 bilhes de reais. Os desafios para coloc-la em funcionamento at maro de 2016 eram conhecidos desde o incio: a distncia dos grandes centros, a dificuldade de logstica, o custo da mo de obra e o calor equatorial na regio. Mas um problema com o qual os construtores no contavam  o que vem dando mais trabalho agora: as invases do canteiro de obras comandadas por ONGs e executadas por ndios, sem-terra e demais populaes que ajudam a justificar a existncia dessas entidades. As manifestaes paralisaram Belo Monte por noventa dos 700 primeiros dias da construo. Cada dia parado resulta em um prejuzo de at 10 milhes de reais  a suspenso das operaes, portanto, j consumiu quase 900 milhes de reais. 
     A ltima invaso teve incio na segunda-feira. Setenta ndios da etnia mundurucu passaram 24 horas dentro de nibus para percorrer os 800 quilmetros que separam sua aldeia, em Mato Grosso, de Belo Monte. Para entrar no canteiro, eles renderam com um arco e flecha uma funcionria da Norte Energia, empresa responsvel pela usina. Invadiram os escritrios e expulsaram os administradores. Em seguida, armados de tacapes, zarabatanas e flechas, os ndios tentaram tirar dos alojamentos os operrios  alguns dos quais, munidos de peixeiras, reagiram. A interveno da Fora Nacional de Segurana evitou um conflito maior. Os mundurucus em nada sero afetados pela usina. Mas, estimulados e financiados por quatro ONGs (Xingu Vivo, Instituto Socioambiental, Conselho Indigenista Missionrio e Greenpeace), dizem querer impedir a construo de Belo Monte e de outras trs hidreltricas na regio amaznica. 
     Os responsveis por Belo Monte estimam que essa tenha sido a pior das dezesseis invases j registradas e temem um desfecho trgico nas prximas, dada a violncia crescente dos episdios. Eles tambm receiam que um novo confronto entre manifestantes, operrios e foras de segurana possa provocar uma paralisao mais longa, que impediria a entrega da usina no prazo previsto. Nesta semana, a Norte Energia ir ao governo federal exigir o aumento da segurana na regio. Os ndios deixaram o canteiro na madrugada de sexta-feira, mas nem precisavam ter se incomodado. Na mesma manh, a Justia suspendeu a liminar de reintegrao de posse que havia sido obtida pelos construtores da usina. 
OTVIO CABRAL


7. ESPECIAL  NO BASTOU ESCAPAR DO INFERNO
Fugir da Coreia do Norte, um dos regimes mais brutais do planeta, exige sacrifcios extremos. Mas, ao chegarem ao mundo livre, os refugiados se vem diante de outro tipo de dificuldade: aprender a usar a escada rolante, a fazer compras e a conviver com a discriminao e a descoberta de que passaram a vida toda enganados pelo governo.
THAIS OYAMA, COM FOTOS DE ADAM DEAN, DA SIA

     Poucos lugares no mundo renem almas to desafortunadas quanto o centro Hanawon, em Seul, de apoio a refugiados da Coreia do Norte. Ser um dos seus 400 moradores significa ter crescido sob um dos mais brutais regimes do planeta, passado boa parte da vida na escurido, visto ao menos um parente prximo morrer de fome e nunca ter lido um nico texto no produzido pela propaganda oficial do governo. Significa ainda ter crescido aterrorizado com a possibilidade de ser mandado para um gulag por ter, por exemplo, deixado de usar o tratamento honorfico obrigatrio para se referir a um dos membros da dinastia Kim  Kim Il-sung  o Sol da Humanidade; Kim Jong-il  o Querido Lder; e Kim Jong-un, neto e filho dos Kim anteriores,  o Supremo Lder. Quem est em Hanawon arriscou-se a levar uma bala nas costas na tentativa de alcanar a China, conseguiu atravessar aquele pas sem ser mandado de volta  Coreia do Norte pela polcia local e pde chegar a uma nao no comunista que teve a caridade de envi-lo para Seul. Para recomearem a vida em liberdade, os moradores de Hanawon venceram todos esses obstculos. Mas vo descobrir em breve que, para quem teve o infortnio de nascer sob a tirania dos Kim, at ser livre tem um preo. 
     Anos de uma dieta famlica fizeram com que os norte-coreanos ficassem em mdia 11 centmetros mais baixos e 10 quilos mais magros do que os capitalistas do sul. Mas as diferenas fsicas so menores do que o abismo cultural a separar hoje os povos que at 1945 eram um s. Na dcada de 90, com a runa da Unio Sovitica e o fim da mesada mandada pelos camaradas, o sistema educacional da Coreia do Norte se desmantelou, ao mesmo tempo em que se deteriorou o sistema estatal de sade e distribuio de comida. Hoje, na maior parte das cidades norte-coreanas, uma criana em idade de cursar o fundamental tem sorte se conseguir ir  escola algumas vezes por ano (a exceo  Pyongyang, a capital e vitrine do pas, onde s se mora com a permisso do regime). Enquanto isso, um aluno da ultracompetitiva Coreia do Sul estuda em mdia sete horas por dia e est matriculado em pelo menos mais dois cursos extracurriculares. A Coreia do Sul ocupa o primeiro lugar no ranking de consumo per capita de ao do mundo  mais de 1 tonelada por habitante. J no depauperado norte, at a energia eltrica  um luxo, o que obriga as famlias que no moram em Pyongyang a ir dormir assim que o sol se pe, igualzinho na Idade Mdia. 
     Hanawon funciona como uma espcie de cmara de descompresso, na qual o refugiado do norte vai aos poucos sendo exposto  nova realidade. A uma hora de Seul, o centro fica isolado em uma regio rural parcamente habitada.  guardado por seguranas e no pode ter seu endereo divulgado. As precaues visam a dificultar a ao de espies norte-coreanos infiltrados na Coreia do Sul para localizar dissidentes importantes para o regime. Os prprios hspedes de Hanawon, antes de dar entrada l, tm de passar por uma investigao conduzida pelo Servio Nacional de Inteligncia (NIS, na sigla em ingls) para comprovar que no so espies a servio de Kim Jong-un. Checados, comeam a fase de "reeducaco", que dura trs meses. Nesse perodo, aprendem, entre outras coisas, a andar em escadas rolantes, fazer compras, usar carto de crdito, caixa eletrnico e forno de cozinha. 
     Para quem acabou de chegar de Marte, tudo  novidade. Mas nada se compara ao choque dos norte-coreanos ao visitar Seul, conta Jung Hun Seung. diretor do Hanawon. Em grupo, j que no podem circular sozinhos, eles so apresentados  capital do pas ao qual j pertenceram, com seus milhares de carros cruzando as avenidas, as quase trs dezenas de pontes que reluzem sobre o Rio Han, os infinitos arranha-cus e shopping centers que exibem nas vitrines coisas que eles nunca viram na vida. Ao olharem os seus iguais andando pelas ruas de patins, de bon, de mos dadas, escutando nos fones de ouvido as msicas que escolheram escutar, morando nos lugares onde escolheram morar, os norte-coreanos enxergam o que poderiam ter sido. "Alguns ficam duas noites sem dormir depois de voltar da excurso", diz Seung. 
     Nas aulas de histria e poltica ministradas em Hanawon, ligado ao Ministrio da Unificao da Coreia do Sul, novas surpresas aguardam os recm-chegados: eles so informados, por exemplo, de que a guerra entre as Coreias comeou com uma invaso-perpetrada pelo norte  e no o contrrio, como aprenderam. E que a Coreia do Norte no  o "Paraso dos Trabalhadores" nem "a segunda nao mais feliz do mundo" (a primeira  a China, segundo o governo de Pyongyang), mas, sim, um dos mais miserveis e atrasados pases do planeta. "So informaes que provocam nervosismo e desconforto nos alunos", afirma o diretor Seung. "Mas h algo mais difcil para eles do que absorver informaes polticas, que  entender as regras de mercado'", diz. 
     Na Coreia do Norte, bem ou mal, o estado  o provedor. E a sociedade, ao menos em tese,  igualitria. Assim, os norte-coreanos no compreendem por que o fato de eles viverem agora na Coreia do Sul no significa, automaticamente, que tero um emprego, uma casa e um carro, como os sul-coreanos que eles vem em Seul. "Eles acham que esto sendo discriminados. No tm a menor noo de conceitos como esforo, competio e meritocracia", diz Seung. 
     Quando, ao final, entendem que o estado no vai cuidar deles para sempre e que  preciso ir  luta para conseguir o que se deseja, deparam  de novo  com as diferenas. Na Coreia do Sul, 82% dos jovens chegam  universidade. J entre os 23.000 norte-coreanos que vivem l, essa porcentagem no passa de 5%. E, mesmo assim, poucos desses alunos conseguiro se formar. "A maioria desiste", afirma Dong Ju Yun, diretor da Wooridul, uma escola de reforo para estudantes norte-coreanos sustentada por ONGs e administrada por professores voluntrios. "Eles percebem que nunca alcanaro a performance dos colegas", diz. Ao medirem a distncia entre os seus sonhos e a capacidade de torn-los realidade, acabam se juntando aos demais  empregados em supermercados, fbricas e restaurantes. 
     A norte-coreana Joo Young Lee (o nome, chins,  falso) trabalha como garonete em um restaurante em Seul. Antes de fugir para a Coreia do Sul, tudo o que sabia sobre o pas provinha de duas fontes: a propaganda oficial norte-coreana e o filme Minha Mulher  uma Gngster, policial sul-coreano que ela havia visto dezenas de vezes escondido. "Sonhava em aprender a lutar e a atirar para vir morar em Seul. S tinha esse filme para assistir, ento achava que todos aqui eram gngsteres", diz. Perfeita beldade coreana  de traos delicados, olhos grandes, pele alva, lbios rechonchudos e vermelhos , Joo terminou h oito meses a quarentena em Hanawon. Na presena da antiga tutora, recita sorridente o mantra dos convertidos: diz estar feliz por viver numa sociedade livre, sente-se bem tratada e quer aproveitar todas as oportunidades que o governo sul-coreano lhe oferece.
     Ela se preparou para ser fotografada para a reportagem, como mostram sua maquiagem e produo caprichada. Os refugiados norte-coreanos no podem ter o rosto identificado em fotos, segundo as regras de segurana a que esto sujeitos. Mas, na hora de posar para o retrato, Joo pergunta se pode esconder tambm os ps. Explica em voz baixa: teme que o namorado a reconhea pelos sapatos. Ela mentiu que  sul-coreana e receia que ele, lendo a reportagem, descubra a verdade e a abandone (ela aceitou esconder apenas o rosto depois de saber que a matria no seria publicada na Coreia do Sul). 
     Aos olhos da sia rica, os norte-coreanos no so apenas cidados de segunda categoria. A bizarria do regime dos Kim transformou-os em seres exticos como um panda azul. Na cidade chinesa de Dandong, separada da cidade norte-coreana de Sinuiju pelo Rio Yalu, prospera um novo filo turstico: "Aviste a Coreia do Norte e fale com um norte-coreano", diz a placa na entrada do porto improvisado. Meia dzia de lanchas aguardam a chegada de fregueses em frente a um quiosque que aluga binculos e oferece suvenires com fotos de Kim Il-sung. Biscoitos, pes e pacotes de salsicha tambm esto  venda, mas no se destinam ao consumo dos turistas. A vendedora explica: "Voc pode atirar para eles do barco. Eles tm fome e so muito pobres. No conhecem nenhum desses produtos". Por 100 iuanes por pessoa (16 dlares), turistas embarcam nas lanchas em grupos de seis. O piloto diminui a velocidade diante de soldados norte-coreanos que fazem a patrulha da fronteira e avisa que militares no podem ser fotografados. Mais  frente, para diante de uma criana que acena para o barco. Arranca gritos excitados dos chineses ao atirar na sua direo os pacotes de salsicha comprados no quiosque. O menino pega o embrulho e sai em disparada. "Ele est correndo porque tem medo de que o soldado roube o pacote dele", explica o condutor. 
     Tanto a Coreia do Norte quanto a do Sul dizem querer a unificao dos pases. Para a do Norte, o motivo est ligado, como sempre,  propaganda. Entre as fantasias disseminadas pelo regime, est a de que uma parcela crescente de sul-coreanos sonha em se juntar ao norte para desfrutar a felicidade de viver no Paraso dos Trabalhadores e s no o faz por causa da implacvel represso do governo de Seul, fantoche do arqui-inimigo americano. J na Coreia do Sul, a unificao  componente de um iderio nacionalista compartilhado tanto pela esquerda quanto pela direita, embora com sinceridade cada vez menor da parte de ambas. 
     Mais de 65 anos depois da separao, apenas 10% da populao da Coreia do Sul tem algum parente ou amigo na Coreia do Norte. A indiferena em relao  questo  ainda maior entre os jovens, que no tiveram contato algum com os irmos de cima. Mas mesmo quem teve pensa duas vezes antes de insistir no assunto. Quando a Alemanha Oriental se juntou  Ocidental, a diferena entre os PIBs per capita era de um para trs. No caso das Coreias, essa desvantagem chega a um para 44. Os sul-coreanos no tm dvidas sobre quem pagar a conta na hiptese de uma reunificao. 
     J da parte da Coreia do Norte, o temor  de outra natureza. Por mais que Kim Jong-un se faa de louco, no  capaz de acreditar nas prprias mentiras. Ele sabe, assim como seus generais, que, na eventualidade de as Coreias se juntarem, o norte ser absorvido pelo sul, e no o contrrio  de maneira que, se as coisas sarem do controle, no  improvvel que sua cabea acabe separada do pescoo. A ditadura norte-coreana  uma das mais cruis j testemunhadas pela humanidade no s porque condenou milhes de pessoas  ignorncia,  fome e  mentira, nem apenas porque mantm 300.000 homens, mulheres e crianas confinados em campos de prisioneiros que fazem o inferno parecer um spa de luxo. A tirania dos Kim  duplamente cruel porque no poupa nem os que conseguem escapar dela. Para eles, o regime reservou outro castigo: o sofrimento de se sentir para sempre uma aberrao.

OS MAIORES INIMIGOS DO REGIME
     At o ano passado, o Rio Tumen era, por assim dizer, o local de trabalho do norte-coreano Chuljoo Li (o nome  falso), de 28 anos. Com gua at a cintura, ele negociava com comerciantes chineses, igualmente molhados, os produtos que mais tarde revenderia na sua cidade, na provncia de Ryanggang, na fronteira com a China. Comprava e vendia "tudo o que se possa imaginar": arroz, metanfetamina, sof para a sala, mesa para a cozinha, sapatos e cachorros (sim, esses ltimos destinados  mesa). Mas as mais disputadas mercadorias eram, e at hoje so, os DVDs de filmes e novelas sul-coreanos, diz o norte-coreano, que hoje mora em Seul. 
     Para o governo da Coreia do Norte, trata-se de material de altssimo poder subversivo. Para moradores das fronteiras, representa a primeira janela para o mundo exterior. Ao mostrarem como os vizinhos do sul vivem  e comem, se vestem e se divertem , as novelas desmentem a delirante propaganda oficial do regime, segundo a qual a Coreia do Sul  uma nao miservel e repleta de desempregados loucos para se mudar para o norte. Os norte-coreanos assistem escondido a esses vdeos, que passam de mo em mo entre amigos. D cadeia ser pego com um DVD desses. Depois que os computadores entraram para o cardpio de produtos contrabandeados no rio, est cada vez mais fcil driblar a polcia poltica do regime. "Um DVD  mais difcil de esconder. J se os guardas pegam voc com um pen drive, basta engoli-lo", diz Li. 
     Quase 40% dos norte-coreanos refugiados em Seul ouvidos sobre seu passado pela consultoria Inter-Media apontaram os DVDs como a maior fonte de informao sobre a vida fora da Coreia do Norte.

KIM VAI  GUERRA?
     A Coreia do Norte j prometeu transformar Seul em "um mar de fogo", ameaou "varrer do mapa os agressores americanos" e jurou derrot-los numa "guerra sem misericrdia". No ltimo ms, o generalato de Kim Jong-un voltou a exercitar sua retrica de vilo de histria em quadrinhos no que j se tornou uma prtica previsvel  abril, ms do aniversrio do fundador da dinastia, Kim Il-sung,  a poca de dar uma lustrada nos nimos nacionalistas da populao. Ainda assim, o fato de a Coreia do Norte ter um programa nuclear e antecedentes nada recomendveis  que incluem o assassinato de 115 pessoas no atentado a um avio sul-coreano em 1987  impede o mundo de ignorar as bravatas de seu supremo e rechonchudo lder. Kim Jong-un pretende mesmo ir  guerra? Tem bala para tanto? Como det-lo? 
 consenso entre os analistas que o potencial nuclear da Coreia do Norte  pequeno e seus sistemas de bombardeio so inexistentes ou, no mximo, pouco eficientes. Isso significa que, a curto prazo, os riscos de um ataque aos Estados Unidos, por exemplo, so muito baixos e os de um ataque bem-sucedido, menores  ainda. J as possibilidades de um bombardeio direcionado a bases militares americanas no Japo, na Coreia do Sul ou em Guam, no Pacfico, so um pouco maiores  embora improvveis, dado o carter suicida da ao. 
     Menos controversa ainda  a questo da disposio do regime norte-coreano de abrir mo do seu programa nuclear. Desde 1990, quando veio  tona a notcia de que a Coreia do Norte se preparava para ter a bomba, o pas deu incio ao seu bem-sucedido modelo de chantagem: ameaas seguidas de promessas de conteno que, premiadas com dinheiro, comida ou a suspenso de embargos, so imediatamente quebradas to logo o governo consegue o que quer. Se o mtodo se provou infalvel at agora, porque abrir mo dele? A Coreia do Norte no vai desistir da bomba porque, como escreve Andrei Lankov em seu livro The Real North Korea: Life and Politics in the Failed Stalinist Utopia, sem ela, o pas se igualaria a naes como Gana, com quem compartilha a pequena populao e os indicadores econmicos miserveis. E, nessa hiptese, no h dvida: Kim Jong-un ficaria falando sozinho.


8. EUROPA  GUERRA AOS PARASOS FISCAIS
A Unio Europeia resolve combater com dureza os pases que acolhem dinheiro de evaso e so lavanderia de organizaes criminosas. A crise exige a moralizao.
MARIO SABINO, DE PARIS

     A Swissair vem anunciando aos passageiros que, a partir deste ms, e pelo menos por todo o vero no Hemisfrio Norte, ter um voo dirio para Singapura. Parece estranho que haja tanta gente querendo percorrer a rota Zurique-Singapura-Zurique, por mais que a cidade-estado limpinha e moderna do Extremo Oriente exiba alguns encantos tursticos. Mas a companhia area no est rasgando dinheiro, no sentido contrrio da tradio helvtica. Suos fazem timos chocolates, fabricam esplndidos relgios e, alpinos que so, adoram montanhas  sejam aquelas de cumes gelados, sejam as nem to metafricas assim, compostas de euros e dlares convertidos em francos nativos. Em seus 372 bancos clebres pelo segredo ptreo da sua carteira de clientes, e beneficiados por uma legislao fiscal branda para estrangeiros, est depositado um tero (o equivalente a 2 trilhes de euros) do capital offshore do mundo. Ou seja, da riqueza, da grana, da mufunfa que circula  margem do alcance dos diversos  e bem mais altos  impostos das naes de onde ela se origina. Metade das contas bancrias na Sua pertence a europeus vizinhos. Quem precisa de voos entre Zurique e Singapura? Executivos, advogados e investidores empenhados em transferir parte dos depsitos na Sua para filiais de bancos helvticos instaladas do outro lado da Terra. 
     Esse  um captulo da guerra declarada pela Unio Europeia aos parasos fiscais, em especial aqueles situados no corao do continente. Para escaparem ao cerco, bancos dessa nao propem agora a seus clientes que utilizem as sucursais de Singapura, pas fechadssimo do ponto de vista poltico e, por enquanto, menos suscetvel a controles internacionais do que as ilhas do Caribe que igualmente servem de refgio a recursos offshore. Singapura ganhou os holofotes em seguida  revelao de que o ex-ministro do Oramento da Frana Jrme Cahuzac havia sido titular de uma conta no declarada em uma instituio de Genebra, convenientemente removida para uma filial situada l. O escndalo francs engrossou ainda mais a voz da Unio Europeia, que se prepara para lanar uma legislao dura contra os parasos fiscais. A necessidade exige a moralizao. No contexto da crise econmica mais aguda desde o fim da II Guerra, no d para fazer vista grossa ao dinheiro de evaso que encontra refgio em meio aos Alpes ou em latitudes mais longnquas. 
     A artilharia est pesada em todas as frentes. Em abril passado, uma rede formada por 36 jornais europeus e americanos deu incio  publicao de reportagens fundamentadas em 2,5 milhes de documentos provenientes de duas empresas especializadas em montar firmas e fundos de fachada em parasos, a fim de esconder melhor o nome dos verdadeiros titulares de contas no declaradas. A documentao, reunida sob o nome de Offshore Leaks, refere-se a 120.000 dessas companhias fajutas, e foi obtida pelo International Consortium of Investigative Journalists, sediado em Washington. A turbulncia em Chipre exps, ainda, como esse pas da Unio Europeia havia se transformado num centro de evaso e lavagem de dinheiro de vrias procedncias, principalmente russa, o que ajudou a apodrecer seus bancos no apenas alavancados demais com ttulos gregos, como inchados com euros sujos. O auxlio aos cipriotas teve como uma das contrapartidas a limpeza do setor financeiro do pas, e a confuso na ilha mediterrnea fez recrudescer a presso sobre naes como Luxemburgo, Liechtenstein  e ustria, que cultivava ares de mulher honesta , para que modifiquem sua legislao paradisaca. 
     H uma enorme diferena entre pases que atraem cidados estrangeiros por meio de impostos mais baixos, exemplo da Blgica em relao  Franca, e parasos fiscais. No primeiro caso,  preciso que o indivduo transfira o seu endereo  ao menos formalmente  para a nao mais vantajosa, onde pagar taxas proporcionais como qualquer outro contribuinte de patrimnio e renda idnticos. Foi o que fez com estardalhao o rolio, e agora escorregadio aos olhos da Fazenda francesa, Grard Depardieu, depois da posse do socialista Hollande e do aumento de impostos j escorchantes. Quanto aos parasos, no  preciso fixar residncia  alis, estrangeiros no residentes pagam taxas bem menores sobre seus investimentos , o dinheiro pode ser deslocado clandestinamente, h absoluta liberdade para a movimentao do capital dentro e fora das fronteiras e, por ltimo, mas no menos essencial, o segredo bancrio s  aberto mediante pedidos judiciais muito especficos (e insistentes) feitos por autoridades estrangeiras. A legislao permite tambm que o cliente dissimule a sua identidade por meio de montagem de empresas e fundos de fachada, como vem sendo exposto pelo Offshore Leaks. Esse ltimo procedimento, que torna quase impossvel a identificao do proprietrio da conta, faz parte do pacote vendido por bancos sob o eufemismo de "otimizao fiscal". 
     A exigncia do segredo bancrio  regulamentada na pioneira Sua durante a dcada de 30   estendida no apenas a funcionrios das instituies financeiras, como a advogados e contadores, mesmo que as operaes violem as leis vigentes no pas de origem do cliente. Essa caixa-forte comeou a cair em 2009, quando o franco-italiano Herv Falciani, que trabalhava na filial de Genebra do HSBC, se disps a colaborar, por motivos ainda no claros, com autoridades americanas e europeias. Ele ps  disposio informaes relativas a 130.000 clientes com contas no HSBC suo, suspeitos de evaso e outras prticas criminosas. Falciani encontra-se sob custdia da polcia espanhola, depois de escapar da Frana a bordo de um barco, por medo de ser assassinado. A Sua quer a sua extradio, mas o pedido foi negado. Graas  Lista Falciani, os Estados Unidos, a Frana e a Espanha recuperaram bilhes de dlares e euros "otimizados". Falciani abriu uma avenida. A Alemanha sentiu-se  vontade para minar a discrio bancria da Sua e de Liechtenstein, oferecendo somas a empregados de bancos dispostos a vender dados. Recentemente, a Rennia-Palatinado comprou por 4 milhes de euros um CD com 40.000 nomes e valores de clientes do Credit Suisse domiciliados nesse estado alemo. 
     A Sua tenta preservar o segredo bancrio, por intermdio de um tipo de acordo bilateral conhecido por Rubik, seu idealizador. Ele prope a manuteno do anonimato dos clientes estrangeiros, em troca da regularizao fiscal deles em seu pas natal feita a partir da Sua  ou seja, o pagamento pelos bancos dos impostos sonegados e respectivas multas condizentes com a legislao do signatrio, mais o comprometimento de que as taxas continuaro a ser quitadas no futuro. Na prtica, isso significa que a Sua dir, a cada ano, sem revelar as identidades, que l existem tantos clientes com tanto de dinheiro e, em cima disso, entregar ao Fisco credor a quantia correspondente aos impostos em vigor na nao que aceitar o acordo.  a verso helvtica do la garantia soy yo. 
     No sculo XVIII, o escritor e pensador francs Voltaire dizia que, se algum visse um banqueiro suo pular pela janela, era bom pular atrs. "Seguramente, h dinheiro a ganhar!", ironizava. Hoje,  melhor chamar a ambulncia. Formou-se um consenso entre os governos das maiores economias e a banda boa do sistema financeiro mundial de que os parasos devem cessar de existir. No s por razes de evaso, mas porque eles encobrem propinas recebidas por polticos e empresrios corruptos. Alm disso, so lavanderias de dinheiro do crime organizado. Os Estados Unidos esto na vanguarda do combate. A gota d'gua para a elaborao da Foreign Account Tax Compliance, lei a entrar em vigor em 2014, e que funcionar de modelo  Unio Europeia, foi a descoberta de que a UBS, um dos principais bancos suos, aliciava ricaos americanos com a montagem de esquemas de evaso. A UBS viu-se obrigada a pagar 780 milhes de dlares a Washington e fornecer o nome dos clientes, sob pena de ser banida dos Estados Unidos (apesar da punio, executivos do banco foram denunciados recentemente por fazer a mesma coisa na Frana). 
     A Foreign Account Tax Compliance prev que todas as instituies bancrias estrangeiras notificaro o imposto de renda dos Estados Unidos sobre transaes acima de 50.000 dlares, ou o equivalente a 38.000 euros, efetuadas por cidados americanos. As instituies que se recusarem a faz-lo tero retidos 30% dos lucros de seus ativos nos Estados Unidos, e o contribuinte fraudador pagar, ao fim, uma multa de 40% do valor evadido, bem mais temperada do que a habitual. Os parasos so responsveis, hoje, pela movimentao de metade das finanas mundiais. Se o conceito que os define for ampliado, entra nesse clube a City de Londres, onde ocorrem as operaes com "eurodlares", inveno de sessenta anos atrs. Trata-se de depsitos em dlares americanos em bancos europeus ou filiais europeias de bancos dos Estados Unidos e da sia, trocados por certificados denominados eurodlares. Essa moeda escritural serve como base para investimentos cujos dividendos no esto ao alcance da legislao americana, visto que realizados fora do territrio dos Estados Unidos. A questo  que muitas dessas transaes com eurodlares se do em dens fiscais. A Foreign Account Tax Compliance poder dar um ponto final  farra, acarretando prejuzos vultosos  City londrina. A ver. Nos anos 60, o trote recorrente nos jornais econmicos ingleses era pedir aos reprteres novatos que solicitassem ao Banco da Inglaterra uma foto de uma nota de eurodlar, conta o historiador David Kynaston. Quem quiser atualizar a brincadeira pode perguntar  Swissair se a companhia aceita eurodlares como pagamento por uma passagem Zurique-Singapura-Zurique.


9. RELIGIO  ANTES DE FRANCISCO
Biografia recm-lanada no Brasil revela as origens do estilo pastoral do papa e peculiaridades raramente associadas a um pontfice, como o gosto pela culinria.
ADRIANA DIAS LOPES

     Eram duas horas e quinze minutos da tarde de 26 de fevereiro de 2013 quando o voo da Alitalia decolou do solo argentino. O cardeal Jorge Mrio Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, se colocou em seu assento, esticou as pernas e respirou fundo. Tinha pedido para sentar na fileira da porta de emergncia porque uma dor no joelho e no quadril que o obriga a tomar corticoides piora quando ele fica vrias horas sentado. Pouco depois da decolagem, na solido e no silncio do voo, sentado no seu assento da classe econmica, fileira 25, corredor, as dvidas comearam a assalt-lo. 'Fiquem tranquilos, no existe nenhuma possibilidade de que eu venha a ser papa.' Bergoglio tinha repetido esta frase aos seus muitas vezes. Ele tinha certeza que sua hora j tinha passado, entre outras razes, pelos seus 76 anos." Quinze dias depois, o cardeal foi eleito papa  o papa Francisco. A descrio da viagem inicia a graciosa e surpreendente biografia do pontfice A Vida de Francisco, da jornalista argentina Evangelina Himitian, recm-lanada no Brasil pela editora Objetiva. O livro retrata a vida de Francisco desde os tempos no bairro de Flores, centro da capital portenha, onde ele nasceu. Primognito de cinco filhos, o papa passou a infncia e a adolescncia praticamente morando na casa da av Rosa para aliviar a me nos cuidados dos irmos. 
     Foi com ela que Francisco aprendeu a rezar e dela herdou a devoo a Nossa Senhora. A narrativa de Evangelina, porm, se detm fundamentalmente no perfil do sacerdcio de Bergoglio em Buenos Aires. Inmeras histrias mostram que a pregao firme, humilde e pastoral que se tornou a marca de Francisco , na verdade, sua maneira de ser desde sempre  como a simplicidade de viajar para Roma na classe econmica, sozinho, sem comitiva. 
     Bergoglio sempre defendeu a tese de que a Igreja deve dar preferncia aos pobres. A tradio do lava-ps, que relembra anualmente o episdio bblico em que Jesus lavou os ps dos apstolos em sinal de humildade, foi seguida por Francisco no ltimo 28 de maro. O papa impressionou os fiis no s ao lavar, mas tambm ao beijar os ps de jovens detentos, entre eles uma mulher muulmana. Evangelina conta que Bergoglio repetiu a cena apaixonada a cada ano de seu apostolado em Buenos Aires, sempre com pessoas carentes, doentes ou dependentes qumicos. Qualquer medida poltica que, a seu ver, desfavorecesse os mais pobres o tirava do srio. Inclusive quando isso ocorria dentro da prpria Igreja. Francisco  abertamente contra a Teologia da Libertao, movimento religioso que tentou adotar o marxismo em ensinamentos cristos, sob o argumento da opo preferencial pelos menos favorecidos. "No se deve entender o pobre a partir de uma hermenutica marxista.  preciso conhec-lo a partir de uma hermenutica real, extrada do prprio povo", dizia ele. 
     Outro retrato de simplicidade de Francisco teria ocorrido no conclave de 2005, para a escolha do sucessor de Joo Paulo II. No terceiro escrutnio, Bergoglio e Joseph Ratzinger teriam se aproximado na disputa dos votos. A votao desempatou depois de o cardeal argentino ter pedido a seus pares, durante a pausa do almoo, que seus votos fossem encaminhados dali para a frente para Ratzinger. Entre as razes para o desprendimento haveria a de que Bergoglio no queria ser "um candidato da diviso, mas do consenso"  como aconteceria oito anos depois. 
     Com apenas dois meses de papado, Francisco  um fenmeno editorial. At julho, tero sido lanados seis ttulos sobre o pontfice. A Vida de Francisco, porm, foi o nico a ser escrito por uma das poucas jornalistas que conviveram com Bergoglio, sempre avesso a entrevistas. Evangelina no apenas escreveu reportagens sobre ele para o jornal argentino La Nacin por cerca de dez anos como, desde 2006, passou tambm a trabalhar na equipe dos encontros ecumnicos promovidos pelo ento cardeal Bergoglio. A proximidade permitiu revelar peculiaridades raramente atribudas a um papa, como as habilidades culinrias de Francisco. Na dcada de 80, quando era reitor do Colgio Mximo e da Faculdade de Filosofia e Teologia de So Miguel, em Buenos Aires, Bergoglio costumava reunir grupos numerosos de alunos. Aos domingos, dia de folga da cozinheira, era ele que preparava as refeies. Seu frango com creme de leite e manteiga  famoso. Outra singularidade: ao ser eleito papa, Bergoglio ligou para os amigos argentinos e lhes deu um nmero de fax do Vaticano para que eles pudessem enviar cartas. O pontfice as responde por telefone.


10. MEMRIA  TO CAPAZ E CAPAZ DE TUDO
Assim era o italiano Giulio Andreotti, no um homem de princpios, e sim um poltico completo.

     Sete vezes primeiro-ministro, figura incontornvel da poltica do seu pas durante setenta anos. Giulio Andreotti personificou como nenhum de seus pares, seja nas luzes, seja nas sombras, a Democracia Crist, o partido que conseguiu barrar o avano do comunismo entre os italianos no ps-guerra, protagonizou o reerguimento de uma nao  e se desintegrou em sua verso original, com as desinfeces conduzidas pela operao judicial Mos Limpas. O terremoto que determinou o fim da Primeira Repblica na Itlia causou sismos adicionais na biografia de Andreotti, acusado de agir a soldo do chefo Salvatore Riina (em quem teria dado um "beijo de honra") e de ser o mandante da morte de um jornalista. "S falta eu ser responsabilizado pelas guerras pnicas", ironizou. Catlico observante, apstolo da frieza florentina  era primeiro-ministro quando se recusou a negociar a libertao de Aldo Moro, expoente da DC sequestrado e assassinado pelas Brigadas Vermelhas , foi descrito por seu padrinho de carreira, Alcide De Gasperi, como algum "to capaz que era capaz de tudo". Seus inimigos o chamavam de "Belzebu", apelido bem emoldurado pela cabea quadrada, pelo pescoo inexistente a olho nu e pela corcunda literria. Os admiradores o alcunharam "O Inoxidvel". Seu ao, contudo, era dctil, visto que, "quando voc vira o corpo, o que est  esquerda passa a estar  direita e vice-versa". Andreotti dialogou com cinco papas, de Pio XII a Bento XVI. A Joo XXIII, aconselhou aprofundar o seu conhecimento sobre o Vaticano. Quando as crianas jogavam futebol na Praa de So Pedro, saiu de uma partida para entrar na baslica, misturado a franceses. Ao ouvir de Pio XI o cumprimento em outra lngua, exclamou: "Sou romano!". O papa riu-se: 'Ah, ento voc  um penetra!". Outra Roma. Europesta por pragmatismo, ajudou a Itlia a ser uma das donas da festa, ao isolar a inglesa Margaret Thatcher nas longas tratativas que resultariam na unio poltica entre os pases da comunidade at ento s econmica. "Ele parecia ter a convico de que um homem de princpios estava fadado ao escrnio", escreveu Thatcher. Nunca perdeu a piada. Por ocasio da unificao alem, comentou: "Gosto tanto da Alemanha que preferia que continuasse a haver duas". No foi um grande homem, e sim um poltico completo. Talvez esses sejam atributos excludentes na imensa maioria dos casos. No dia 6, aos 94 anos, morreu no apartamento da capital italiana que guarda parte dos seus arquivos implacveis. O melhor epitfio para Andreotti? A sua frase que o diretor americano Francis Ford Coppola colocou na boca de um personagem de O Poderoso Chefo III: "O poder s estraga quem no o tem". 
MRIO SABINO, DE PARIS


